Alienação ambiental
É possível falar sobre crise ambiental sem discutir os excessos do capitalismo?
Há cada vez mais vozes a proclamar que vivemos em estado de emergência ambiental. Depois de três décadas em que foi ficando cada vez mais claro que os recursos do planeta se iam esgotando, parece existir finalmente algum consenso sobre o momento grave que se vive.
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O que não anula os cépticos. Por inerência. Para defenderem os seus interesses económicos. E outros porque acham que existe sempre uma saída tecnológica. Talvez emigrar para Marte. Quem sabe se não é uma solução desse tipo que é imaginada pelos Trump e os Bolsonaro da vida.
Ainda assim é sempre com perplexidade que se vê especialistas ou políticos, falar sobre o ambiente e em nenhum momento proferirem a palavra capitalismo. Percebe-se as ressonâncias, mas não será tempo de encetar uma discussão séria sobre o tema? Não se trata de acreditar em revoluções milagrosas, mas de questionar como chegámos aqui e fazer as perguntas para que as melhores soluções sejam geradas.
Mas não. Vivemos em estado de alienação ambiental. Passámos de um estado de indiferença para o de pânico, o que também não é aconselhável, e lá continuamos em fuga para a frente. Persistimos na conversa de elevador. Antes dizia-se ao vizinho que estava muito calor, agora que o clima já não é como era. Em vez de situar a discussão na política, ele é deslocado para os comportamentos, para as mudanças culturais ou para a ética. Fala-se de um colapso ambiental como algo abstracto ou neutro. Até a maior parte dos partidos verdes europeus evita a designação capitalismo, com medo de afastar eleitores, quanto mais os partidos clássicos que parecem agora ter despertado para o assunto.
O máximo que arriscam é falar de “capitalismo verde” ou de “economia circular”, como agora sucede com Macron. Há dias, ao vê-lo discursar, defendendo uma economia sustentável onde se consuma menos e melhor, se recicle, se evitem produtos de uma só utilização e se promova a reutilização, lembrei-me dos meus avós alentejanos. Não usavam plásticos. Os desperdícios orgânicos serviam para a horta. Nenhum retalho do porco era esbanjado. À noite a electricidade era racionada. E a roupa herdava-se das gerações anteriores. Os meus avós, como muitos outros da mesma geração, não desperdiçavam, porque os recursos eram escassos.
Agora dizem-nos que recuperemos esse espírito. Ok. Com excepção dos resíduos orgânicos, as minhas práticas são semelhantes há muito, pelas mesmas razões dos meus avós. Mas será que quem vive entre mordomias e numa lógica de acumulação capitalista, que para funcionar necessita que consumamos e quanto mais melhor, está pronto a fazer o mesmo? Pois.
Mas o pior é que mesmo que esses esforços sejam concertados, é insuficiente. Alternativas precisam-se. Urge pensar em modelos de transição. Alguns programas de combate às alterações climáticas que têm vindo a ser discutidos, como o Novo Pacto Verde, e outros, são presididos por uma lógica de intervenção de curto ou médio prazo. Mas há incógnitas. É possível alguma acção política e social resolver a crise climática sem colocar em causa a estrutura de poder capitalista? É pouco crível. Para encetar as necessárias mudanças profundas é preciso questionar o regime económico, as dinâmicas de desregulação, as lógicas de crescimento infinito e de acumulação de lucro. É preciso pensar na reforma de um sistema que se mostra nocivo à vida sustentável na terra.